Entrevista com Eduardo Pinheiro

Eduardo Pinheiro, também conhecido como Padma Dorje, foi uma das pessoas mais influentes no começo da internet brasileira, e hoje escreve artigos, compõe, grava e produz “blues estilizado progressivo” em que toca vários instrumentos, pratica o vajrayana, mantém uma enorme biblioteca de arquivos de computador, traduz palestras e livros de professores budistas e autores beatniks, programa e conserta computadores, escreve prolificamente e mantém um canal sobre budismo no Youtube, e aqui fala sobre os problemas do uso supostamente espiritual de alucinógenos, ficção científica, a difculdade de largar a maconha, história da internet, música, filosofia, budismo, cinema…

A entrevista é longa, mas vale a pena.

Estive entre os primeiros milhares, usando a rede através da UFRGS, onde na época cursava ensino médio técnico. Meus primeiros acessos foram em 1993, telnet, gopher e ftp. A web veio depois. Acessava principalmente ftp.funet.fi e ftp.sunet.se. Acho que muita gente dentro da universidade na época até fazia a conta e acessava e-mail, mas provavelmente fui um dos primeiros a furungar a coisa pra valer, obsessivamente, no então sistema VMS que a federal nos proporcionava pela incrível velocidade de 2k4 baud, pelo telefone.

O curioso é que, conversamente, também fui uma das últimas pessoas a entrar nas BBSs, em 1993 mesmo, quando a coisa toda já estava prestes a terminar. O Daniel Pellizzari, que conheci no Vortex (esse sistema VMS onde acessávamos a internet na UFRGS) me apresentou o pessoal da Masternet e assim consegui abrir umas contas, e lá já participava de fóruns de discussão. Naquela época eu podia discar para a UFRGS ou para alguma dessas BBSs, mas perdi a maior parte do material daquela época. Desde 1998, no entanto, guardo cada e-mail enviado que tenha algum conteúdo (respondendo uma pergunta, mantendo uma conversa) — são hoje cerca de 50.000 e-mails.

Foto de um encontro da Masternet em 1996.

Na cauda longa, no nicho, acho que até sim. Já me escreveu gente dizendo que a minha foto foi uma das primeiras coisas que viram na internet. Quando fiz meu primeiro website, em 1996, não havia (como ainda não há, relativamente falando) muito conteúdo em português. Daí que isso, e a onda de misticismo esotérico que rolava no Brasil nos anos 90 (minha primeira página era sobre Aleister Crowley e Jorge Luis Borges), mais o fato de que toda pessoa articulada acabava se conhecendo no “clube” que era a internet até o fim da década, fez com que eu fosse relativamente conhecido. Mas permaneço realmente uma mera curiosidade fringe na mente das pessoas que ainda lembram.

Um canal de IRC (Internet Relay Chat), onde conheci várias pessoas com quem ainda pecho hoje, de vez em quando. Fui um dos criadores do canal em 1996 ou 1997, mas chegou um ponto em que precisei sair totalmente, porque o chat estava consumindo minha vida, e eu basicamente só brigava com dezenas de pessoas a noite toda. Larguei toda forma de chat público de 1998 até 2008, e a partir daí uso bem pouco e evito bastante — se eu não conheço pessoalmente, eu peço para enviar e-mail. Pelo mesmo motivo parei com qualquer tipo de game, mas em particular os multiusuários e por rede, desde a mesma época. (O Facebook eu entrei em 2010 para divulgar um centro budista em que eu vivia, mas também encerrei minhas atividades por lá em 2017, após a eleição de Donald Trump. E recomendo a todos que façam o mesmo.)

O Daniel Pellizzari criou esse site, e botou um ou dois textos meus. Ele se interessava mais por Magia Caótica do que eu. Nunca entendi bem a proposta, mas parece que ainda está no ar.

O Pellizzari, que escreve como o Diabo, tem uma estética bem peculiar, com que eu nem sempre me identifico. Mas ele tem um senso de humor bem semelhante ao meu. Quer dizer, acho que ainda tem, embora já há vários anos eu só troque e-mails esporádicos com ele.

Segundo site na internet, 1996.

Ciberxamanismo, hoje chamado Memórias do Neto de Dacum, o Aborígene, foi um projeto inspirado principalmente por Robert Anton Wilson e a cultura da droga de forma geral, com alguma cabala, thelema (o sistema místico de Aleister Crowley), psicologia de almanaque e misticismo quântico — também alguma Magia do Caos. Só por essa lista dá para entender porque, hoje, o livro me envergonha tanto. Por “cultura da droga”, quero dizer principalmente essa ideia de que os alucinógenos proporcionariam algum tipo de experiência espiritual — o que hoje me parece algo profundamente absurdo.

O livro é estruturado de acordo com os oito circuitos da consciência, de Timothy Leary, e segue um padrão que eu considerava “fractal”, de subdividir os temas de cada capítulo em temas cada vez menores e menos gerais na hierarquia do índice. Mas com as conexões entre os assuntos eram basicamente inspiradas por cannabis, é uma espécie de “vale-tudo” cognitivo, saladão total. Ele é meio inspirado por manuais alquímicos e taoísmo, e dá até para dizer que é uma versão estritamente pós-moderna — desbragadamente charlatã e cheia de humor autorreferencial— desses manuais.

Eu não recomendaria a ninguém a leitura. Sério. Perda de tempo total. Em retrospecto, acho interessante ter feito um livro assim. É uma coisa legal de se ter vergonha, como a travessura de uma criança, se é que tu me entende.

Autor de “Memórias” e amigos.

Quando eu comecei a largar as drogas, primeiro eu larguei os alucinógenos, e boa parte da versão da ideia de “expansão da consciência”. Nessa altura eu já havia tomado refúgio no darma do Buda, e usei um enfoque secular, ainda que embasado no livro seminal e absolutamente clássico de Trungpa Rinpoche, Além do Materialismo Espiritual.

Esse texto foi escrito em primeiro lugar para o sujeito, um professor de artes de uma universidade gaúcha, que comprou a minha biblioteca de cultura da droga, então com cerca de uns 100 títulos. Terence McKenna, Tim Leary, Robert Anton Wilson, Castañeda etc. Eu não queria queimar os livros, nem perder a grana investida, mas senti enorme culpa por, digamos assim, ajudar uma pessoa a saltar do precipício. Então a primeira versão desse texto foi uma carta para ele, que eu anexei ao conjunto de livros que vendi.

Daí o livro começou a circular entre os fãs de “ciberxamanismo” e a comunidade da cultura da droga em português, e boa parte desse debate foi também incorporado no texto. O texto além de estar no site, consta como um apêndice em Memórias.

Esta foto não foi tirada sob efeito de dORgas.

A pior droga para mim, além do açúcar, foi a cannabis. Ela realmente mexe com a energia do sujeito, e embora eu ache que tem bastante gente funcional sob efeito dela, também acredito que essas pessoas certamente estariam bem melhor sem ela. Essa droga foi difícil de largar, e eu precisei passar por umas experiências bem ruins com ela, e realmente sentir o peso dela sobre o corpo, para me conscientizar. Por uns dois anos depois que eu parei (em 2001), eu ainda sonhava que estava fumando ou indo comprar a droga.

As outras coisas mais loucas, e eu experimentei um bocado de coisa, foram tão pontuais que não chegaram a produzir nada de tão ruim. O que eu tinha de pior era essa perspectiva, essa ideologia, da salvação pelos alucinógenos — que eles iam me fazer ver uma outra realidade e que assim eu estaria um pouco livre da ilusão. Na verdade, são apenas uma superilusão. Então quando abandonei essa perspectiva, foi fácil.

De fato, meu problema maior era com a espiritualidade, eu mantinha uma perspectiva materialista da espiritualidade, no fundo, embora não desse para reconhecer isso enquanto eu estava envolvido com a coisa toda. No ocultismo com que eu tinha lidado, e também no gnosticismo que vinha de quebra via Jung e K. Dick, com a Wicca e Thelema, e com Huxley, Leary, RAW, McKenna e Shulgin, tudo tinha um anseio verdadeiro e legítimo, mas um método e uma motivação secundária caótica ou distorcida.

Então quando dizem no darma “não é preciso alterar nada”, e basicamente precisamos reconhecer as coisas como elas são, e repousar nessa natureza, sem ficar tentando puxar daqui e dali, sem botar tanto esforço, e tentar tanto obter algo “diferente”, ali, naquele momento eu pensei que isso era realmente mais inteligente.

Mas o açúcar, e vários outros estados e “alterações”, e o mexe-mexe com a mente, a gente segue na luta para evitar.

Desenho por Fernanda Alvarenga.

Chegar ao budismo nunca é garantido, o mérito precisa ter sido acumulado ao longo de muitas vidas — é o que o próprio budismo afirma sobre isso. Acho que se fixar nas experiências dessa vida é um erro. Então acho que embora eu tenha com certeza gasto um bocado de tempo e mérito com essas bobagens, eu ainda assim consegui, até certo ponto, me conectar com o darma. Mas a conexão com o darma é um esforço diário, momento a momento — não é nunca garantida, até o estado completo de buda.

Por outro lado, pelo menos um lama que conheço já expressou algumas ideias favoráveis a certos efeitos que a maconha e alguns alucinógenos podem causar em umas poucas pessoas — aquelas muito “quadradas” por constituição, o que não é geralmente o perfil das pessoas já predispostas a usar as substâncias.

Certamente este não era meu próprio caso quando comecei a usar drogas, embora talvez até fosse o caso antes, até o fim da puberdade. Ainda assim, mesmo ele, um lama reconhecidamente iconoclasta, com certeza não está advogando o uso. Para algumas pessoas, pode ser um remédio, um remédio muito pontual e específico, e a ser abandonado. E eu não sei quem poderia prescrever, e com certeza a automedicação deve ser evitada. Além disso, para cada uma dessas raras pessoas que poderiam tirar algum benefício da experiência, há centenas ou milhares que apenas se enganam — e prejudicam a esfera pessoal e espiritual de suas vidas, quando não prejudicam a esfera profissional e social também, e quando não prejudicam outras pessoas também com suas teorias da conspiração paranoicas e ações erráticas.

Para pessoas como eu, que cheguei a sentir o cheiro de um surto psicótico em algumas experiências que tive, reconheço que são extremamente perigosas. Tenho certeza que elas muito mais me prejudicaram que ajudaram.

Esta foto também não foi tirada sob efeito de dORgas.

Acho que consigo ver como caímos facilmente presas do hype, e nos entregamos a ideologias sem pensar as coisas direito, só porque parecem esteticamente atraentes ou mesmo só porque são uma coisa fringe na sociedade, e portanto “reptilianos, avante!”, ou algo assim. “Abaixo o sistema, cara”.

Parece que algumas pessoas se atraem pela ideia de que estão sendo enganadas em sua experiência cotidiana, seja pelo governo, pela sociedade em geral, pelo seu aparato cognitivo etc. — e esse pensamento faz muito sentido e é muito válido — porém com base nisso elas pegam a primeira bobagem que rompe com o que é “normal” e a tomam como válida só porque está em contraposição ao que é tido como senso comum válido ou socialmente aceitável.

E, na verdade, “alucinógenos contra o sistema” é um dos maiores clichezões que há, não é?

Até esperamos isso de adolescentes, e minhas próprias ações foram ações no contexto de uma longa adolescência. Mas então quando a gente acaba de brincar com a primeira subversão que encontrou (seja ela política, espiritual, o que for), temos duas alternativas: ou acatamos a norma ou descobrimos e nos aliamos aos verdadeiros rebeldes. No meu caso, os verdadeiros rebeldes a que tento me filiar são aqueles que descobriram a ausência de uma essência e de uma separação entre eu e outro, e assim tentam aperfeiçoar sua compaixão.

Livros publicados.

Além do Memórias, há o Restos Mortais (não disponível para venda, pendente revisão]) que é a coletânea de minha marginalia. Sim, é absurdo, mas num determinado ponto achei divertida a ideia de um escritor sem obra publicando marginalia. Mas é exatamente isso, e tem pouca coisa ali digna de orgulho. Ele é um livro bastante pessoal. Vendeu bem menos que o Memórias. Também não aconselharia a ninguém comprar. Pelo jeito sou o único escritor que não aconselha as pessoas a comprar seus livros… “São muito ruinzinhos, não percam tempo com eles.”

Então fiquei um bom tempo trabalhando como voluntário, e não consegui focar muito tempo na escrita, embora eu tenha calhamaços esperando revisão ou conclusão. Basicamente três livros quase prontos, dois sobre budismo (um de perguntas e respostas e outro mais geral), e um sobre minha experiência no curso de filosofia. Esses estão realmente quase prontos. Há também quatro projetos bem adiantados, em torno de 60–80% concluídos: são coletâneas de artigos sobre budismo, filosofia e outros assuntos, e um livro semelhante a Restos Mortais, mas em inglês e bem melhor. Há outros dez livros começados, e algumas ideias como um livro de resenha de filmes com contexto dármico.

O próprio Restos Mortais precisa de uma revisão furiosa, vi muitos erros de português no meu exemplar, e se eu terminar algo novo, acho que volto ao restos mortais para tentar salvar a coisa toda. Mas só se eu terminar algo novo.

Mas sei lá quando vou ter tempo, ultimamente tenho me dedicado a juntar uma poupança que permita uns seis meses de trabalho nas minhas coisas, de forma que eu possa terminar uns três ou quatro. Ou pelo menos um.

Leitores de Fritjof Capra.

Evito chamar o pensamento asiático de “filosofia” porque há muito eurocentrismo no uso desse termo, ainda que ele tente sempre se passar por neutro e universal. As preocupações e métodos da filosofia podem ter semelhanças com várias formas sistemáticas de pensar na Ásia, mas é problemático chamar as últimas de “filosofias” — esse é um projeto grego, alemão, francês, inglês e que se vinculou a religiões abrahâmicas. Para muita gente isso soa uma crítica ao pensamento asiático, mas de um viés que não vê tanto valor assim na filosofia, como o meu, é na verdade um elogio. Quero separar as coisas para não misturar com a confusão ocidental.

Podemos então usar “pensamento asiático” em vez de “filosofia oriental”, para evitar o etnocentrismo e o racismo.

Sim, foi com o Tao da Física, isso foi lá pelos 16, 17. O mais curioso foi como eu cheguei nesse livro: foi através de um livro popular, desses de banca, sobre a banda The Doors. Hoje eu posso até ser bem nerd, mas antes da puberdade eu era um nerd absoluto. Além de ser um fisicalista estrito, ateu, só aceitando e só me interessando por hard sciences, eu só ouvia música barroca. Por algum período entre os 10 e os 16 anos, eu só queria saber de Bach, e desprezava a maior parte da música popular, também o rock. Um colega de escola começou a ouvir Doors, por causa do filme do Oliver Stone, claro, e meu primo pediu que eu gravasse uma fita — eu acabei ouvindo e gostei muito, mas levou um tempo para eu confessar para os amigos que estava gostando de rock. Eu adorava o Ray Manzarek, e acabei aprendendo o teclado de várias músicas dos Doors.

Mas esse livro sobre os Doors, escrito por Alberto Marsicano, conectava o Aldous Huxley da minha infância com os alucinógenos e o Tao da Física. E isso de certa forma definiu muito minha juventude.

Quando guri, achei o Tao da Física um ótimo livro. Realmente me fascinei muito em particular pelo capítulo sobre budismo. Hoje sei que se trata de um livro sensacionalista e um tanto pobre, tanto na parte de física quanto na parte de pensamento asiático — enfim, um livro datado, que ninguém com algum entendimento recomendaria. Mas foi crucial na guinada dionisíaca da adolescência. No fundo é um livro hipongão: é um papo de “para de ser tão cartesiano, cara” — que é claro não diz nada (certo) sobre Descartes, mas possivelmente diz bastante mesmo sobre como eu era quando criança. Eu era exatamente o que o hipongão chama de “cartesiano”.

Pinheiro recebe o katag de Chagdud Rinpoche.

São tempos de degenerescência mesmo, esses em que alguém como eu aparenta a reputação de ser emérito no campo do budismo. Eu, talvez por ser tão gordo e histriônico, sou visível — além dessa minha atividade exibicionista na internet… daí os incautos acabam achando que eu tenho algum tipo de reputação como budista. Isso pode ser facilmente dissipado se perguntarem a algum dos meus professores ou amigos próximos que são praticantes: eles vão dizer “Ah, o Eduardo… é meio preguiçoso, né… uma figura… até que nem sempre ele apronta confusão.” Ou algo assim.

Minha mãe tinha um daqueles Budas gordos em casa, e sempre me disseram que fazer cosquinha na barriga da estátua “traz dinheiro”, algo assim. Esse foi meu primeiro contato com o Buda…

Depois, no ensino médio na UFRGS, alguns colegas frequentavam palestras budistas, e um deles me levou num encontro budista no parque, isso em fins de 1997. Fiquei bastante impressionado com a postura das pessoas, particularmente com S. Ema. Chagdud Rinpoche fazendo os mudras do que mais tarde descobri ser a prática de Tara Vermelha. Nessa altura eu já tinha lido que Buda significava “desperto”, e que era um título, e sabia uma versão da história do Buda histórico, talvez já pela internet ou pela minha enciclopédia.

Druptchen de Vajrakilaya, 1999.

A estátua gorda? Não muito boa. Achava uma superstição divertida. Legal por ele ser tão obscenamente gordo. Parecia haver algo de errado nisso. Com relação a figura do Buda histórico, quando conheci a história da vida dele eu já era lido em Nietszche, então como qualquer pseudão dos anos 90, achei um absurdo aquela fixação toda em sofrimento. A perspectiva mahayana da vacuidade, por outro lado, me interessou muito.

Essa coisa do monástico, asceta, e assim por diante, nunca me fizeram a cabeça, e ainda acho que não fazem: embora eu hoje tome refúgio na sanga monástica, é claro, e acredite no grande benefício que eles criam ao manter os ensinamentos. Mas se o budismo se resumisse a isso — e acho que na cabeça de muita gente ele se resume a isso — eu não teria me interessado por ele.

A primeira vez em que entrei numa sala de meditação fiquei muito impressionado com a pureza da coisa toda, e com a postura dos praticantes, em particular do professor. Fiquei com legítima vergonha da minha postura física — e eu já sabia o suficiente para conectar as coisas, que a postura física e a postura perante a vida estavam de certa forma conectadas. Então me deparei com os nomes de Milarepa e Padmasambhava, e quando cheguei em casa, fui para o Altavista (alguns anos antes do Google, isto) — e descobri que aquela forma de budismo chamado de “vajrayana”, sobre a qual eu havia lido por cima no livro de Mircea Eliade (Ioga: Imortalidade e Liberdade), existia ainda hoje, em Porto Alegre! Era a coisa mais sofisticada, profunda e esteticamente bela que eu já havia visto. Desde então são 22 anos, e eu não mudei de ideia. Não encontrei nada que chegue nem perto.

Chagdud Tulku Rinpoche, 2001.

Estar presente quando um mestre do calibre do Rinpoche morria enquanto ensinava uma prática sobre como morrer foi a experiência mais importante da minha vida. Vi algumas outras pessoas morrendo, e no melhor dos mundos, é bastante desagradável — você se depara com o sofrimento da pessoa, que às vezes é muito grande por um longo período de tempo, sem saber muito o que fazer, e só pensa que uma hora isso vai acontecer também com você. Não é fácil, se você não tem certas ferramentas espirituais.

O Rinpoche não morreu na frente de todo mundo, ele faleceu em seu quarto, na presença de alguns alunos próximos, na madrugada da última noite do retiro. Porém, ainda assim, é muito evidente que o Rinpoche foi a única pessoa que eu vi morrer direito, como se deve morrer. Deixando uma grande inspiração para todos, dando um grande exemplo, com uma confiança inabalável do benefício efetivo das práticas espirituais de que ele era um detentor impecável.

Eu não tive muito contato pessoal com o Rinpoche, e ele com certeza não sabia meu nome, tinha só talvez alguma ideia de quem eu fosse, de algumas vezes que nos vimos. O que quero dizer é que não tive proximidade suficiente para poder me dizer um “aluno” do Rinpoche, por mais que eu quisesse poder dizer isso. Porém só o fato de eu poder ser um dos 300 que assistiram esse evento, e poder ter isso na memória, é prova da grande generosidade desse homem. Quem o conheceu bem diz que durante toda sua vida ele foi assim. Eu só o vi brevemente, durante eventos de alguns dias, por quatro anos. Ele era muito impressionante em pessoa, ele transparecia uma qualidade meditativa e de presença, um carisma extremamente poderoso e absolutamente benévolo. Conheci outros lamas muito elevados pessoalmente, mas o Rinpoche tinha uma qualidade de compaixão muito peculiar e intensa.

Foto com Dzongsar Khyentse Rinpoche em 2001.

Comparado com um professor como Rinpoche, claro que não. E nem comparado com bons praticantes que conheço — mesmo alguns que começaram a praticar talvez 10 ou 15 anos depois de mim. No entanto, nos tempos de degenerescência, até gente preguiçosa como eu, que põe muito pouco esforço na prática espiritual, com qualquer pouco esforço é capaz de gerar muito mérito. Então é possível regozijar até com o pouco darma que eu consigo sustentar na minha vida cotidiana e na minha quase inexistente prática formal. É um regozijo meio assustado, cutucando: “Puxa, você bem que poderia se aplicar um pouco, não é mesmo?”.

Quando penso que mesmo Milarepa talvez pensasse assim de sua enorme e vasta prática, daí a coisa sai de perspectiva. Não cheguei ao ponto em que posso morrer sem arrependimento, e a morte tá aí, né? A qualquer momento.

Antes de ter essa segurança, acho que a pessoa não pode se dizer um bom praticante.

Pinheiro no pátio do Khadro Ling.

Não. Se eu tivesse grandes qualidades e agisse como eu ajo, talvez desse para dizer isso. Mas eu realmente não tenho grandes qualidades. Essa é a diferença. Quem não me conhece bem que me compre.

Um praticante secreto é alguém que ninguém toma por praticante do darma, e que talvez até aja de uma forma que todo mundo pensa “Esse cara não sabe nada, não tem a mínima noção e incomoda todo mundo”, porém, por dentro, ele é um bodisatva, ele é um grande praticante que, para causar certo tipo de benefício, cria uma aparência de praticante ruim ou não praticante. De certa forma esse ensinamento também serve para a gente não julgar tanto os outros pela aparência: aquele ser horrível que incomoda tanto pode, no fundo, ser um Buda pregando uma peça. É bom pensar assim com todo mundo, deixar essa incerteza epistêmica depurar nossa mente de julgamento.

E às vezes também é realmente mais fácil praticar em segredo, porque a sociedade não aprova muito, e porque naturalmente a pessoa, quando tem uma aparência de praticante, tende a entrar em questões de comparar sua prática com a dos outros, e tem que lidar com as expectativas das pessoas, assim por diante… Então pode não ser só por compaixão, às vezes também é mais fácil praticar em segredo.

Mas quem dera. O próprio fato de você perguntar isso mostra como sou um farsante terrível. Talvez eu, por saber essas coisas, largue umas pistas dando a entender algum tipo de humildade etc. — não se engane. Não tem nada aqui, mesmo; e isso não quer dizer que não tem apego ao eu! Tenho muito apego ao eu e a outras ilusões ainda mais triviais! Aqui não há realização espiritual alguma, e uma compaixão talvez menor do que a de um gato que caça, uma prática de meditação irrisória. Minhas ações não são muito piores ou melhores do que as de qualquer um. E mesmo o low profile, que é indicado para qualquer praticante, eu não levo a sério: aqui estou eu de novo falando sobre o darma, sobre mim mesmo, me autopromovendo etc.

Procure um professor sério e faça sua prática de acordo com ele, se tem alguma coisa útil que eu possa dizer é isso. O resto tudo do que eu digo é mero entretenimento, quando não só chateia.

Foto de Mauriã Sabbado, fotógrafo que, segundo Pinheiro, é mesmo um exemplo de praticante low profile.

Na maioria dos casos, não em todos, mas na maioria, não é proveitoso ser estereotipado como um budista. Além do que, de forma geral, falar da própria prática espiritual produz obstáculos, no sentido de que você tende a começar a aumentar o número de variáveis que podem interferir — por exemplo, uma pessoa vem e diz “Ah, você faz prostrações? Prefiro tai chi.” E na hora em que você está fazendo sua prática, surgem dúvidas aleatórias — não fazem parte propriamente de um processo de reflexão sobre a prática, que você deve ter feito até certo ponto antes de se engajar nela, mas surgem como dissipação de uma energia que você poderia estar focando de forma mais coerente.

A sua “reputação” como praticante (como você me perguntou há pouco), as expectativas dos outros, boas ou ruins, tudo isso só adiciona dispersão. E particularmente no budismo tibetano, no qual a discrição é um valor intrínseco — por esses motivos e por tantos outros.

Quando você começa a frequentar um centro de darma, geralmente você repara mais em alguns praticantes visíveis, e acha que eles são os “bons”… mas com o passar dos anos, você começa a mudar de perspectiva. Você começa a reparar na prática séria e nas grandes qualidades de algumas pessoas que sabem se manter muito pouco visíveis. O maior esporte e o maior regozijo num centro do darma, ao longo dos anos, é sacar as qualidades muito bem escondidas de pessoas que não assumem nenhum tipo de protagonismo.

E, claro, quando você atinge um grau de segurança na sua prática, e está buscando refiná-la através de lutar contra obstáculos complicados, daí é a hora de fazer alarde. Você diz, como o Buda, “A terra é testemunha” (da realização espiritual dele), e chama os exércitos de Mara (os obstáculos, emoções aflitivas e circunstâncias difíceis de prática) para o combate.

Tem que se ler. Se é desagradável, é porque vai polir alguma coisa que está saliente. Muitos professores budistas também não são exatamente agradáveis, especialmente depois que o encanto dos encontros iniciais passa. Mas estes livros que mencionei têm ótimos momentos, mesmo num sentido de entretenimento, comoventes mesmo. O problema é que você se depara com sua própria insignificância, e com desespero pelo tempo que já perdeu. Daí o problema, é claro, não é o livro. É como um espelho: não dá para culpar o espelho pelo desconforto.

O próprio Dzongsar Khyentse Rinpoche chama um desses livros, um clássico obrigatório do budismo tibetano, de “saco de depressão”.

Paramentado para o trabalho como porteiro do templo.

Nunca se sabe, mas não tenho planos. A experiência para mim nas duas vezes que tentei (dois anos e meio, no total entre as duas) foi difícil, creio, por motivos bem diferentes do que a maioria das pessoas pensa. Sou filho único e acostumado a muita privacidade, e a não ter que lidar com os outros o tempo todo. No centro de darma a interação social é muito intensa — eles têm até mais festas do que eu normalmente aguentaria. Ninguém acredita nisso, mas a minha vida em Porto Alegre é muito mais isolada, quieta e fácil do que num centro de darma. As pessoas pensam que é o oposto: que o centro de darma talvez seja até uma chatice, a pessoa fica rezando e não fazendo nada, descansado e em silêncio, quase catatônico… é bem diferente disso: o trabalho é muito intenso, e a interação é muito intensa também.

Fico pasmo, e acho muito difícil de explicar isso para a maioria das pessoas. Porque a expectativa usual das pessoas sobre isso tem que ser torcida e retorcida: algumas pessoas acham que o centro de darma é mais “quieto”, e que talvez seja “fugir” do mundo — mas em certo sentido aqui onde eu moro agora, embora soe como se fosse mais “dentro do mundo”, na prática se têm bem menos contato efetivo com as pessoas. E não há uma valoração universal nisso: a pessoa pode ter mais contato e não desenvolver compaixão, ou ela pode ter menos contato e isso não pacificar a mente dela. E isso aqui ou lá, no mundo ou no centro de darma, essas coisas todas variam muito em várias circunstâncias. Então as pessoas realmente não entendem a diversidade de experiências de um centro de darma, só passando pela experiência. E se isso vai ser benéfico para ela, só avaliando junto com o professor. Em todo caso, qualquer circunstância pode ser utilizada para a prática do darma.

Além disso, é claro, o centro de darma demanda muito mais esforço em termos de trabalho do que eu jamais consegui oferecer. Então é um fracasso da minha generosidade não conseguir morar num centro de darma. E aqueles que moram por lá, eles são mesmo meus herois.

Recebendo bênçãos de Chagdud Rinpoche no Druptchen da Essência do Siddhi, 2001.

Wittgenstein sempre achei uma figura muito interessante, mas todo mundo sabe que ele não é muito compreendido. Talvez eu tenha uma interpretação peculiar, mas gosto da biografia dele pelo Ray Monk, O Dever do Gênio.

Linguística, sociologia, filosofia, matemática, lógica, computação: nada disso eu entendo de verdade. Sou um bom micreiro e um tradutor razoável, mas sou um grande amador nesses outros assuntos, e devido ao nível ruim de educação da maioria das pessoas, mesmo aquelas que tem graus, eu talvez conseguisse me passar por conhecedor, se quisesse isso. Mas eu mesmo sei bem que meu conhecimento é superficial: suficiente para escrever o tipo de crônica de cultura e da ciência que eu escrevo algumas vezes, mas nada muito mais do que isso.

Uma boa qualidade que tenho é que consigo realmente lidar bem com grandes áreas de ignorância. A maioria das pessoas abre um artigo sobre um assunto que desconhece, e na primeira palavra estranha, ou no primeiro parágrafo abstruso, desiste. Eu não. Começo lendo o início e o fim, e, se preciso, vou atrás de alguma coisa para poder entender o que não estou entendendo, e me contento com saber de uma forma bem geral o que está dito ali — mas não saio do texto sem levar nada, nunca. Essa atitude, que eu chamo de “diletantismo extraordinário”, é uma das coisas de que eu sinto que poderia me gabar sem soar absurdo.

Em certo sentido, com o tempo abandonei muito o idealismo e a base ideológica de Isaac Asimov, mas essa característica generalista do Bom Doutor acabou me inspirando.

Na UFRGS.

Trato disso no meu livro Filosofia: Forma de Vida e Passarela de Egos, porque realmente o meu motivo para ir para a faculdade foi sui generis. Foi um professor budista que recomendou que eu fizesse física, mas achei muito difícil; seria necessário estudar todos os dias, calcular integrais o tempo todo, páginas e páginas de cálculos. Então pensei em trocar para Letras, mas o professor em questão achou que Filosofia seria mais interessante, para estudar as várias formas com que as pessoas se enganam.

Logo percebi que seria bem mais fácil que a física: ler para mim nunca foi estudar, nunca foi trabalhoso. Sou daqueles que lê bula por prazer.

Fiz meu trabalho de conclusão sobre os argumentos contra a linguagem privada nas Investigações Filosóficas , de Wittgenstein. Em particular sobre o “experimento do besouro”, que é um experimento de pensamento no qual digamos duas pessoas tem algo dentro de uma caixinha, que não podem mostrar uma para a outra — eles chamam aquilo que está ali dentro de “besouro”, mas não tem meios de saber se o que uma delas chama de besouro é o que a outra chama de besouro. É o problema da assimetria entre primeira e terceira pessoas, e está ligado a problemas epistemológicos em filosofia da linguagem e da mente.

Acho que há uma confluência desse problema e o debate entre a svatantrika e a prasangika, formas do madhyamaka indiano clássico (bom, elas não se identificavam assim, mas a taxonomia posterior foi essa) — e por isso o problema me interessa, embora eu não tenha mencionado nada sobre madhyamaka ou a Índia budista medieval no trabalho.

Isso ainda pode mudar, mas a princípio acho que não aguentaria a maioria dos departamentos que conheço, e não sei se haveria orientador para algum dos assuntos que me interessa. Além disso, acho que teria que fazer esforço demais para me vincular a um curso cuja qualidade fosse capaz de respeitar.

Se der para viver bem sem ficar buscando títulos, que Bourdieu disse são equivalentes a títulos de nobreza, acho que isso é o melhor. Quanto ao conhecimento, sempre fui autodidata, e não vejo perspectiva de aprendizado mais valoroso do que eu posso fazer em meu próprio tempo livre com meus próprios critérios.

Então há certa preguiça e certa hubris (“Não carece isso aí não, mano.”), bem como certo cansaço justificado da experiência na vida acadêmica.

Com o Lha Kang do Khadro Ling em Três Coroas ao fundo.

Juro que fiquei muito surpreso quando li sobre essa relação. Acho que há muito problema de etnocentrismo dos dois lados. Não se sabe quem influenciou mais quem, embora na questão da arte budista primitiva, a influência helênica seja evidente.

Num âmbito popular, outro dia mesmo uma senhora veio com aqueles papos sobre se Jesus havia estudado com os budistas na Ásia, e coisas desse tipo. Acho que houve mais comunicação entre esses povos antigos do que normalmente pressupomos, mas não é para tanto. E me incomoda bastante o universalismo, a ideia de que todas as religiões seriam no fundo a mesma, porque a diversidade é a riqueza, e respeitar o outro não é degluti-lo e dizer que ele é o mesmo, mas sim poder apreciá-lo em sua diferença.

A filosofia acaba sempre se voltando a justificar a comunicação pela linguagem, isto é, ela é proposicional, ligada a formulações verbais (no fundo, ainda diálogos). Essa é a grande diversão e obstáculo da filosofia: ficar brincando com os limites do que pode ser dito. O problema em geral surge porque a nossa perspectiva começa a se contorcer para vir da linguagem, e não de nossa experiência no sentido mais cru da palavra, e muitas vezes podemos até mesmo esquecer que exista uma dimensão fora do texto ou do que possa ser pensado (através do texto, mas tudo que pode ser pensado pode ser pensado através do texto).

O discordianismo mesmo, aquela religião disfarçada de piada que é uma piada disfarçada de religião, é uma manifestação hippie bobinha, mas com seu grau de valor de entretenimento. Mas esse projeto todo que coloca o Timothy Leary como uma espécie de mártir ao estilo de Sócrates, isso é uma grande perda de tempo mesmo. E o mesmo vale para toda essa coisa de “sabedoria” pelas plantas, ou de conhecimento oculto, gnóstico.

Em certo sentido, na filosofia, pelo menos na minha experiência, tenta-se ao máximo fechar o escopo, não sair associando as coisas livremente. Livre-associação é tabu. Esse pessoal da cultura da droga, e do ocultismo também, por outro lado, associa tudo com tudo, o que tem lá seu grau de diversão, mas é, no fundo, o âmbito patológico de não separar bem o que está dentro da pessoa e o que está fora. Para uma mente paranoica, tudo acaba parecendo uma conexão. Eu sei bem o que é estar chapado e ter uma experiência de sincronicidade com algo que alguém passando na rua fala, ou o que está escrito num outdoor… e ficar encontrando cabala na novela das oito, e engenharia alienígena no mofo da parede, esse tipo de coisa. Isso é, efetivamente, o que as pessoas chamam de “loucura”, embora haja um aspecto criativo nisso, e não deixe de ser verdade que existe um grau de conexão entre todas as coisas.

Mas não há nenhum embasamento epistêmico, não temos um eixo ou ponto de apoio, ficamos só equivalendo A com B, sem realmente entender do que se tratam. Perdemos muito tempo e energia reconhecendo padrões que no fundo não dizem nada significativo: só que reconhecemos uma relação entre uma coisa e outra. Esse tipo de transação cognitiva não produz sentido.

Porém, existe o subtexto. Esse subtexto, em cada conversa ou elemento cultural com que nos deparamos, pode ter sido deliberadamente colocado lá, como na publicidade, ou pode ser inconsciente — no caso de uma conversa com alguém que esteja falando da boca para fora e sem grandes intenções explícitas, nem mesmo reconhecidas por si próprio. Nesse sentido que Joseph Campbell falava que o místico nada com deleite na mesma piscina em que o louco se afoga: e ao usar certas drogas, muitas dessas conexões se abrem. Porém muitas delas são até mesmo falsas, ou pelo menos inúteis. Mas a pessoa começa a lidar com toda essa informação que antes não era evidente, e no mais das vezes ela não consegue emergir num âmbito onde há claridade e estabilidade.

Se há clareza e estabilidade, então ver toda essa interconexão se torna a própria onisciência do Buda. Mas a clareza e a estabilidade são, e é aí que tanto a filosofia quanto os hipongas se perdem, mais importantes que uma montanha de informação aleatória sem muito sentido (ocultismo, drogas), ou alguns padrões arbitrários de triagem (filosofia). Com clareza e estabilidade, que é claro se obtém ao treinar o corpo na imobilidade da postura, e nos treinamentos subsequentes de meditação, aí você tem mais chance de conseguir lidar com a ironia, o subtexto, e até mesmo pode usar com mais isenção (com relação à arbitrariedade) certos recursos cogentes de argumentação.

Algumas vezes é difícil explicar o atraso acadêmico dos estudos asiáticos no Brasil. Quando eu estava na universidade federal, um dos meus professores — um bem bonachão e que tinha traduções publicadas do latim—disse que “não houve pensamento sistemático na Ásia antiga e medieval”. Muitas e muitas vezes as discussões se davam em torno dos entendimentos francamente datados de Schopenhauer ou Nietzsche. Quando muito, alguém mencionava Heidegger e a escola de Tokyo — que por si só são vastas distorções tão ridículas quanto as dezoitocentistas.

E claro, não é apenas no meio acadêmico que se vê essas distorções. Particularmente no mundo da nova era, ocultismo, perenialismo, tradicionalismo, teosofia, espiritismo… todo mundo gosta de apropriar, alterar, e algumas vezes até mesmo acusar os outros de estar adulterando. Muitos desses entendimentos incorretos são perpetuados na cultura até hoje, e penetraram o léxico popular sobre budismo.

Então, muita gente leu e comentou esses textos, como se eles trouxessem algum tipo de novidade — e na verdade eu apenas regurgitei alguns dos entendimentos contemporâneos nos estudos asiáticos e sobre o fenômeno do “budismo modernista”.

Bom, eu desconfiava de tudo, sempre, acho que essa é uma boa qualidade. Então ao ler os beats, Fritjof Capra, Nietzsche, teosofia, perenialistas, Mircea Eliade, eu sempre mantinha um pé no chão, e pensava “esses textos estão longe de serem confiáveis”. Eu só descobri algo realmente confiável sobre budismo ao me engajar numa sangha, daí se abriram livros como o Além do Materialismo Espiritual, de que já falei.

O fato é que o budismo, particularmente o budismo tibetano, começou a ser estudado com mais propriedade apenas nos anos 1990. Então nós ainda estamos, 30 anos depois, lidando com um rastro de impropriedade dos 200 anos antes disso, e nos acostumando com as interpretações e adaptações internas, feitas por budistas confessos e bem treinados. Esse processo de adaptação vai levar muito tempo ainda.

Livros importantes… sobre gatos.

Admirável Mundo Novo foi um dos livros que o “Galo Superdotado” do livro infantil homônimo de Maria Dinorah devorava, e assim, acabou sendo um dos primeiros livros adultos que li, lá pelos 7 ou 8 anos de idade. Não sei se entendi muito, mas lembro de ter ficado muito impressionado.

Quando criança, fui muito fã de Einstein — não queria ser astronauta, piloto, essas coisas, queria ser astrofísico, excêntrico, de língua pra fora, cabelo esvoaçante, usar sempre a mesma roupa, e assim por diante. Acabei lendo muita divulgação científica, e Isaac Asimov era o que eu melhor conseguia entender, nesse campo, com uns 10 anos de idade. Embora eu tivesse certo desprezo por tudo que não fosse hard science, um dia “sucumbi” e comprei um livro de ficção científica do Asimov. Se ele era tão legal nos livros de divulgação, como ele seria como ficcionista? Isso começou um longo caminho de “desnhardização”, que acho que ainda segue. Quando criança eu era um fisicalista bem restrito, na adolescência eu já tinha uma abertura bem maior.

Ninguém na minha família se interessava por essas coisas (de ciência ou ficção científica), o mais próximo disso foi um tio meu por parte de mãe que me ensinou rudimentos de eletricidade e eletrônica, bem como alguma trigonometria, por essa época. Eu fui também a primeira pessoa na minha família a se interessar por computadores, e outro tio meu, de parte de pai, que curiosamente também mexia com eletrônica, me deu meu primeiro computador em 1985, quando eu tinha 10 anos.

Com cinco anos de idade.

Acho que alguns adultos me levavam a pensar que sim, e eu gostava da ideia, mas, a bem da verdade, hoje desconfio disso tudo — não há nada de extraordinário em recitar as capitais de todos os países para um adulto, e no fundo eu tenho dificuldade com muitas coisas, e nunca aprendi a ter gosto por estudar, por exemplo. Acho que a ideia do savant sempre me atraiu, e por muito tempo eu vivi pensando em mim mesmo como “diferente”, e, claro, melhor que os outros.

Comecei a quebrar a cara com essa atitude quando precisei crescer, e não tinha mais tanto apelo como quando uma criança divertida que fala coisas inusitadas. Então talvez se possa dizer que eu enfrentei alguns dos desafios que crianças brilhantes enfrentam, mas sem ser realmente tão brilhante assim. Mediocremente acima da média, no máximo.

Listo meus livros favoritos ao longo do tempo em tzal.org — meu livro favorito por muito tempo foi O Colapso do Universo, de Isaac Asimov, que contava sobre o surgimento e o fim das estrelas, e explicava as quatro forças (forte, fraca, eletromagnetismo e gravidade). Passei boa parte da infância pensando sobre estrelas e interações dessas forças.

A ficção científica, em retrospecto hoje consigo ver, parece ter sido, num determinado ponto da história, um jeito das questões importantes e vastas serem apresentadas num formato compreensível e palatável ao gosto popular, ou para uma criança. Falo “foi” porque acho que em certo sentido a ficção científica já está mal das pernas há várias décadas. Parece até que essa profundidade não existe mais tanto na ficção científica.

Os filmes dos anos setenta nos EUA, sejam eles de ficção científica ou outros, sejam grandes produções ou filmes mais independentes, tem efetivamente uma qualidade muito grande — mesmo os filmes “ruins” são relativamente impressionantes. E basicamente cresci assistindo a esses filmes no Corujão, durante a década de 80… Filmes como The Omega Man, No Mundo de 2020, Logan’s Run, os vários Planeta dos Macacos

Era totalmente obcecado com o fim do mundo, O Dia Seguinte, Threads, The Quiet Earth, Damnation Alley. E também os anos setenta foram o início da consciência ecológica. Silent Running foi um filme que me impressionou bastante. Sei mais os títulos em inglês porque, com as lembranças tênues da infância, fui tecendo buscas no IMDb e no Google até achar os filmes que me faziam a cabeça na infância.

Enquanto eu crescia e a informática com que eu já estava envolvido passava a entrar na vida cotidiana de todo mundo, foram exatamente as referências das visões distópicas e utópicas com que treinei na ficção científica que me deram subsídio para interpretar o que seria viver em meio a tanta informação. Quando a gente vive a primeira parte da vida numa província no sul do Brasil, vê o nascimento e morte do videocassete, e lá em algum momento da metade dos anos 90 simplesmente se descobre tendo acesso a uma enxurrada de tudo que era tão difícil de conseguir antes, é claro que isso causa uma euforia inimaginável. Mas… se você viu aquele episódio de Além da Imaginação (“Time Enough at Last”) no qual o sujeito que só quer ler termina com todos os livros, mas sem óculos, você tende a desconfiar de sua euforia. E essa cautela leva a refletir sobre a coisa toda, coisa que acho que ainda estamos fazendo: refletir sobre como é viver em “união cognitiva” com as máquinas.

No leste europeu, Pelotas/RS.

Sabe que baixei e não consegui ver. Pelo jeito estou mais desconfiado das epifanias que você! Mas você está certo, há ótimas exceções até os dias de hoje.

Sim, Brazil e Stalker estão entre meus filmes favoritos de todos os tempos.

Dos filmes recentes, gostei bastante de Moon, e mais pro lado do entretenimento, gostei de Source Code . Se for contar uma década, gostei muito de O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças — que é bastante “epifânico”, se for ver bem.

As primeiras coisas que eu tentei ler em inglês eram revistas americanas e inglesas de computadores: Apple ][, Spectrum, Amiga. Elas custavam uma fortuna, mas chegavam ao centro de Porto Alegre com regularidade. Depois vieram as Guitar Player e Guitar World, e em 93, quando entrei pela primeira vez na internet, letras de rock.

O primeiro livro em inglês que comprei foi um tributo a Isaac Asimov, onde vários escritores escreviam histórias no contexto do universo da Fundação e outros universos asimovianos. Porém ainda lembro que o primeiro parágrafo do prefácio desse livro, escrito por Ray Bradbury, continha a palavra “porridge” — e não achei essa palavra nem no meu dicionário, nem nos dicionários da escola. Talvez fosse da primeira história, não do prefácio… bom, não importa: irritava-me muito a palavra não estar no dicionário. Hoje em dia é difícil pensar isso, né, com a internet ubíqua. Comprei um Webster’s Unabridged, inglês-inglês, só porque tinha essa definição. Era papa de aveia.

É preciso dizer que, até 1990, no ensino fundamental, eu era um péssimo aluno de inglês. Peguei uma daquelas recuperações extras que se tem que voltar para a escola no meio das férias, em pleno janeiro. Tinha muita vergonha de não saber inglês, era totalmente inaceitável. Mas achei um saco o curso de inglês que comecei, cursei por duas semanas. Então fui me forçando a ler, e lá por 1997 eu era fluente em leitura, e entendia muito bem, embora fosse tímido para falar. Então em 98 trabalhando no templo em Três Coroas eu comecei a conversar com os estrangeiros e a coisa deslanchou.

Quando comecei a me interessar por Aleister Crowley, comecei a traduzir muitos de seus textos, para entender mesmo — mas essas traduções, é claro, são muito ruins. O primeiro livro de ficção que li em inglês foi Journey to Ixtlan, do Carlos Castañeda. E o primeiro livro bom, e difícil, foi Foucault’s Pendulum, do Umberto Eco, que li lá por 1996, e que me divertiu muito.

Aliás, acho que tem uma conexão entre o Illuminatus do Robert Anton Wilson e esse livro, e ambos são versões chiques de romances populares, como o Código DaVinci, isto é, um Código DaVinci direcionado para não alfabetos funcionais.

Contracenando com o Billy Bob, na época que curtia FC.

Sim, a edição de bolso do Foucault’s Pendulum e o The Book of Lies do Aleister Crowley mantenho na estante. As revistas infelizmente se perderam.

Em 2001 vendi a maioria dos meus livros, fiquei só com uns 200, e agora tento só manter uma biblioteca eletrônica.

Nunca estudei música com alguém, mas aprendi um pouco de teoria e consigo tirar um som coerente em vários instrumentos. Em 1999 torci o tornozelo e rompi os ligamentos, então fiquei brincando com um software rudimentar de produção musical, usando esses microfones de computador mesmo, de eletreto. Acho que os sons que gravei na época tem certo apelo ao estilo Daniel Johnston — e quando vi o The Devil and Daniel Johnston fiquei realmente em pânico por causa disso.

Por falta de tempo e por achar que não valia a pena usar o pouco tempo livre para me dedicar à música, passei 10 anos quase sem gravar. Então aos poucos comecei a comprar um pouco de equipamento, e acabei voltando a botar algum tempo nisso. Mas não vejo perspectiva de “monetizar” a produção, e nesse momento não é minha prioridade — mas acabo volta e meia preso por alguns dias em torno do Logic. Agora estou aprendendo a produzir melhor o som.

Com relação a influências, eu realmente gostaria de me voltar mais ao blues, e fazer alguma coisa meio Black Keys, mas acabo sempre meio progressivo. Juro que não quero ir para o lado do progressivo… mas é o que acontece. Creio que sou um guitarrista idiossincrático, mas competente, e tenho um bom feeling para o contratempo — mas simplesmente não sei cantar. O vocal é sempre a parte mais difícil da gravação.

Eu gostaria de incorporar Hendrix, Jupiter Maçã, Led, CSN&Y, Sia, Atlanta Rhythm Section, Funkadelic, Albert King, Free, John Lee Hooker, Michael Kiwanuka, Junior Welles, Dadi Freyr, Muddy Waters, Fela Kuti, Shuggie Otis, James Brown… — eu digo que gostaria porque é o que eu gosto de ouvir, mas a maioria deles é impossível de traçar diretamente na minha música.

Mesa do Pinheiro: tambor de chod, katag, violão bem sujo, serkhyen, guitarra wabi sabi, controle remoto do Kodi, Logic Pro no hackintosh, teclado bluetooth do hackintosh, teclado físico do hackintosh, UMX 490, muitos benjamins, Street Zen, mouse do hackintosh, modem da GVT, PC, contador de mantras, interface de guitarra, óculos da Zenniopticals, 2gb de ram, amplificador, xícara chinesa, xícara de gato…

Puxa, obrigado! “Crystal Ship” eu acho que não arruíno totalmente, mas minha “Don’t Let it Bring you Down” eu tremo de desgosto quando ouço — acho que nem está na internet, pelo que lembro. Essas gravações foram ao vivo, com um microfone de computador captando voz e violão. Mas tenho aprendido a consertar a afinação via Logic Pro, e a usar o autotune — e agora gravo tudo separado, e com um microfone condensador, bem melhor. Usar essas ferramentas de correção pode parecer horrível para quem ama a música orgânica, coisa e tal, mas no meu caso tem que ser. E o autotune acho que pode ter usos artísticos, em alguns casos. Vamos ver no que dá.

Tenho evitando os covers também. Eu mesmo não ouviria. Tem que se ser muito competente para prestar uma homenagem/contribuir algo para uma música dessas que tanta gente gosta.

Normalmente faço uma entrevista onde pergunto ao professor sobre como ele prefere traduzir certas terminologias. Essa é a única preparação.

A tradução acaba sendo uma forma intensa de meditação, especialmente quando são várias horas ao longo do dia. Você simplesmente não tem mais acesso aos próprios pensamentos. Pensou, perdeu. A única coisa que você consegue fazer é ouvir, entender, e dizer o que entendeu em português da melhor forma. Não tem tempo para mais nada. Acho uma disciplina mental interessante, porque ao contrário do que muita gente pensa, que a meditação não tem conteúdo intelectual, na verdade não precisa ser assim. Mas esse conteúdo intelectual, com a pressão do tempo, acaba totalmente neutro e livre de maquinação, gostos e não gostos. Sai o que você consegue de melhor, sob pressão. E algumas vezes a plateia reage, se você erra algo grave. Então você precisa atenção total, a melhor precisão que conseguir, e não se desviar para nada que não diga respeito ao que está acontecendo naquele momento. Essa é uma boa meditação com objeto.

Se o professor gosta de falar por longos períodos e eu vejo que não vou conseguir memorizar, gosto de anotar no computador, mas só escrevo palavras soltas e tópicos gerais, e então geralmente consigo me guiar na fala toda.

Traduzindo Khenpo Karthar Rinpoche no Rio de Janeiro, 2008.

Khenpo Karthar Rinpoche, Ji Do Poep Sa Nim Heila Downey, B. Alan Wallace e, em algumas entrevistas, Chagdud Khadro e Tromge Jigme Rinpoche.

É muito difícil fazer tradução literária. Escrever sempre ajuda, escrever as palavras de outros grandes autores, então… É claro que ajuda e muito. Na verdade o único livro que traduzi até agora foram as cartas entre Jack Kerouac e Allen Ginsberg, pela L&PM.

Gravando para o Canal Tendrel, no Youtube.

Acho que a disciplina de escrever dois textos por mês ajuda muito. Alguns dos textos são bem preparados e saem sem erros e quase prontos, outros eu acabo muito em cima do prazo e entrego “o que dá” — mas mesmo estes, considerando que se beneficiariam de uma revisadinha, acho que são ótimos textos.

Muita gente sempre reclama que meus textos são empolados, bizantinos, fora de contexto no site, e assim por diante. Mas eu me sentiria mal de escrever o tipo de texto fácil e publicitário (em forma, claro que não em motivação) que normalmente se encontra na internet. Enquanto me aguentarem, estamos aí.

William Mango é um escultor e espiritualista baseado em Joinville.

Escultor e espiritualista baseado em Joinville

Escultor e espiritualista baseado em Joinville